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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
A IMPORTÂNCIA DAS ONGs
Ao longo da história humana, muitas pessoas têm vivido uma existência inteiramente dedicada ao amor pelo próximo. Na Igreja Católica, pessoas especiais com o dom de doar inteiramente a Deus e aos irmãos em humanidade, são consideradas santas. Um desses santos foi dom João Bosco (1815-1888), um padre italiano que consagrou a vida aos jovens de todo o mundo.
João era um menino pobre, que trabalhava no campo para ganhar a vida. Conta-se que, com apenas 9 anos de idade, teve um sonho que o marcaria: Neste sonho estava Jesus, e ele via uma multidão de meninos brigando, xingando, e queria fazê-los ficar quietos por meio de socos e pancadas. Porém, Jesus dele se aproximou e lhe disse que deveria agir sempre com amor.
Mais tarde, depois de estudar com muito sacrifício (seu irmão mais velho nem queria que ele estudasse), decidiu ser padre. Um dia, foi visitar uma prisão onde ficavam os jovens que haviam caído na criminalidade. Comovido com aquela situação, João Bosco decidiu fazer alguma coisa por eles.
Desde então, dedicou-se inteiramente à educação da juventude, criando casas de oração e aprendizado e fundando uma ordem de padres – os salesianos – que iriam cuidar também da educação dos pobres, dos desamparados e dos meninos de rua.
O interessante, porém, é que, seguindo a inspiração do sonho de infância, dom Bosco achava que a educação deveria ser dada por meio do amor, da alegria e da bondade – e não de punições, severidade e dureza.
Quando lemos jornal e vemos televisão, parece que tudo é horrível e só há guerras, injustiças e crimes por toda parte. É que a mídia em geral prefere noticiar acontecimentos trágicos. Mas, se olharmos bem e conhecermos melhor o mundo à nossa volta, descobriremos que há muita gente trabalhando pelo próximo. Prova disso é que a área que mais cresce é o chamado “terceiro setor”: as ONGs (organizações não governamentais).
As ONGs não pertencem ao governo e também não tem dono que delas possa tirar lucros. São formadas por pessoas que se reúnem livremente não para ganhar dinheiro, mas para trabalhar por uma causa social, na saúde, na educação, na cultura, no meio ambiente, etc.
Ninguém sabe os números exatos, mas milhões de pessoas no mundo trabalham voluntariamente em organizações desse tipo, com o objetivo de ajudar o próximo. Só no Brasil, alguns cálculos apontam que existiam 20 milhões de voluntários.
As ONGs não podem ter finalidades lucrativas nem políticas, ou seja, ninguém pode enriquecer ou candidatar-se a um cargo político por meio de uma ONG. É claro que sempre surgem os espertalhões que querem se aproveitar das situações e há ONGs que não cumprem à risca esses propósitos. Mas o crescimento dessas organizações indica que há muita gente seriamente preocupada em melhorar o mundo
Será que o povo brasileiro é fraterno? Temos ou não uma boa convivência entre diferentes etnias, povos e religiões? Alguns afirmam que o racismo e a discriminação fazem parte da cultura brasileira. Outros dizem que, de fato, houve matança de indígenas, escravidão de africanos e ainda hoje há racismo entre nós, mas, apesar disso, em comparação a outros países, há uma boa relação entre nacionalidades e credos. Basta ver que nunca tivemos sérios conflitos religiosos, nem existem bairros de segregação racial.
OS MORTOS DEVEM SER LEMBRADOS?
O que acontece quando alguém morre? Você acha que acabou e pronto? Devemos esquecê-lo, não falar mais dele? Não é isso que a Humanidade faz há milhares de anos.
Desde os povos mais primitivos, passando pelos egípcios, os antigos gregos e romanos, os japoneses e os chineses, os africanos e os indígenas, pessoas de todos os continentes e das mais variadas tradições religiosas praticaram e ainda praticam o culto aos antepassados. Segundo os antropólogos, essa é uma das características mais antigas e universais da religiosidade humana.
Se você pensa que se trata de algo complexo e misterioso, está enganado: trata-se simplesmente de prestar homenagens, fazer orações e, em alguns casos, até fazer oferendas à alma dos nossos familiares que já morreram. É manter sua lembrança entre nós.
Muitas religiões consideram o culto aos antepassados um dever moral, embora esse culto possa ser feito de diferentes maneiras, revela uma ideia principal, presente sem distinção em todas as religiões: a imortalidade da alma. É, portanto, natural que os vivos se preocupem com os mortos e proponham formas de cuidar deles, mesmo estando do outro lado.
Em civilizações mais antigas, como a grega e a romana, fazer parte de uma família significava cultuar os mesmo antepassados e ter os mesmos “deuses do lar”. Os gregos acreditavam que os mortos continuavam a viver com as mesmas necessidades de quando estavam vivos. Era um dever, portanto, oferecer-lhes alimento em épocas determinadas e fazer libações perante seus túmulos, derramando leite, mel ou vinho.
Se os descendentes cumprissem essas práticas, o morto passava a ser uma divindade protetora da família. Cada casa tinha um altar doméstico, onde o chefe da família celebrava esse culto. Em cada lar, permanecia aceso, dia e noite, o fogo familiar, simbolizando o espírito dos antepassados. Entre os romanos, esses espíritos familiares eram chamados de lares e manes e protegiam o lar.
RAÍZES RELIGIOSAS NO BRASIL
Como você já sabe, as três principais raízes religiosas no Brasil são a indígena, a cristã (na sua expressão católica) e a africana. Nas três, cada uma a seu modo, há rituais relacionados a parentes mortos.
Nossas raízes mais antigas estão entre os indígenas, os primeiros habitantes da terra hoje chamada Brasil. Entre todos os grupos indígenas, a morte é cercada de rituais que visam garantir que o morto faça uma boa viagem para o além.
Tomemos como exemplo os Tupinambá. Segundo sua crença, o ser humano tinha duas partes: o corpo e a alma. Quando a alma se separava do corpo, iniciava sua jornada em busca do “guajupiá”, o paraíso. Mas isso não significava que se acabavam as necessidades dessa alma.
(...) Em virtude disso, os sobreviventes contraiam uma série de obrigações para com os mortos. (...) ofertas alimentares acompanhavam o morto, assim como seus objetos e armas (rede, arco, flecha, plumas, faca, machado, etc), para que pudesse realizar sua viagem com segurança. Então iniciava-se a etapa mais ambicionada por um Tupinambá: a viagem para o guajupiá. O espírito alçava voo para além das montanhas, onde se encontraria com seus antepassados.
(Rosane Volpatto. “O Culto dos antepassados Tupinambá”. http://www.caradobrasil.com.br)
Os Católicos rezam pelas almas e celebram missas por elas, esperando livrá-las quanto antes do purgatório. É que, segundo a doutrina católica, quando alguém morre, passa por um período de purificação. Não se trata de um lugar, mas de um estado. Nesse período, a alma ainda está sofrendo por suas impurezas – quanto mais orações e missas lhe forem dedicadas, mas depressa poderá se livrar desse sofrimento e ser feliz em Deus.
Quase metade da população brasileira tem ascendência africana – e os negros trouxeram para cá sua religião e seus costumes. Aqui, muitas vezes não tiveram liberdade para praticar suas crenças, mas sua cultura ainda permanece entre nós.
Na tradição africana dos iorubas, uma das mais fortes no Brasil, os eguns – também chamados egunguns, babá-eguns ou simplesmente babás – são os espíritos dos antepassados, invocados nos rituais dos terreiros. São espíritos especiais que se materializam para dar conselhos e bênçãos. O culto aos eguns é feitos em terreiros específicos para esse fim; outros terreiros são dedicados ao culto dos orixás, deuses ligados às forças da natureza.
Cada religião tem uma prática diferente com relação aos mortos. Os católicos oferecem orações e o sacrifício da missa pelas almas dos que já se foram. Os orientais fazem oferendas de frutas, às vezes outros alimentos e flores. Os afro-brasileiros evocam os antepassados para pedir conselhos. Os indígenas oferecem objetos que pertenceram ao morto, água e comida para que ele faça uma boa travessia desta para a outra vida.
Os espíritas oram pelos espíritos e os evocam para falar com eles: se estiverem sofrendo, para ajuda-los; se estiverem bem e felizes, para pedir ajuda. No entanto, existe um grupo religioso muito numeroso e influente que não aceita nenhum tipo de oração pelos mortos: os evangélicos. A justificativa para isso tem razões históricas e muito profundas. Veremos isso na próxima aula.
QUEM NÃO ORA PELOS MORTOS?
Existe um grupo religioso muito numeroso e influente que não aceita nenhum tipo de oração pelos mortos: os evangélicos. A justificativa para isso tem razões históricas e muito profundas. Quando Martinho Lutero iniciou o movimento da Reforma Protestante, no século XVI, uma das causas centrais da sua indignação era a chamada “venda de indulgências”. Como a Igreja Católica sempre pregou a ideia do purgatório – um período em que a alma está se purificando no além e pode ser ajudada pelas orações, missas e penitências dos vivos -, houve uma época em que aconteceram abusos muito grandes referentes a essa questão.
Esses abusos foram duramente condenados por Lutero. É que muitos padres, bispos e até papas vendiam indulgências para as almas “ganharem” o céu. Se, por exemplo, alguém tivesse um familiar morto, que houvesse cometido grandes pecados, um bispo ou um papa podia vender uma indulgência e, mediante grandes somas de dinheiro, terras ou privilégios, “garantir” a entrada daquela alma no céu.
Havia também as indulgências vendidas à pessoa ainda em vida. Isso levava a muitos desvios: a pessoa podia praticar todo tipo de crime e depois se “reconciliava” com Deus, pagando à igreja para “entrar” no céu. Além disso, havia um grande comércio em torno dos santos e de suas relíquias. Quaisquer pedaços de pano que se supunha ter pertencido à roupa de um santo valia seu peso em ouro e era até motivo de guerra entre as cidades. Em toda a parte, apareciam ossos, roupas, objetos que tinham sido deste ou daquele santo, gerando fanatismo nos fieis.
Lutero, então, opôs-se a tudo isso. Para resolver a situação, disse que não havia purgatório, mas apenas céu e inferno; portanto, de nada adiantaria rezar pelos mortos ou comprar indulgências. Disse também que só devemos orar diretamente a Deus e não por meio dos santos. Ele quis acabar com os abusos, mas acabou igualmente com uma das mais fortes tradições da religião humana: o culto aos mortos. Isso não significa que os protestantes não tenham preces e nem rituais na hora da morte. Mas, segundo eles, as orações são pelos que ficam e não pelos que se foram.
O CULTO DOS ANTEPASSADOS NAS TRADIÇÕES JAPONESAS
Calcula-se que desde o final do século XIX, chegaram ao Brasil mais de 250 mil japoneses. É claro que os japoneses trouxeram consigo sua cultura, seus costumes e suas religiões, sendo as mais tradicionais o xintoísmo e o budismo.
A ideia de homenagear os antepassados é um ponto comum a todas as tradições japonesas. Os budistas, por exemplo, mantém em casa um altar, chamado Butsudam, como um lugar de conservação da memória dos mortos dentro de casa. No xintoísmo, também, o culto dos antepassados é uma prática fortíssima.
Há ainda religiões mais novas, trazidas do Japão que vem tendo grande aceitação também entre os brasileiros. Dentre elas, com maior número de adeptos, temos a Igreja Messiânica Mundial do Brasil e a Seicho-no-ie. A Igreja Messiânica Mundial possui um centro religioso chamado Solo Sagrado, localizado na estrada de Jaceguai, no Bairro de Parelheiros, em São Paulo. Lá, todos os anos, promove-se o culto dos antepassados para 50 mil pessoas. Japoneses e brasileiros participam dessa homenagem aos mortos.
SOFRER COM O OUTRO
Nem todos sabem ao certo o que significa compaixão. Podemos, porém, dizer que é uma das formas de amor ao próximo. As religiões a elegem como umas das principais virtudes morais. Tanto no Cristianismo como no Budismo, ela é ponto central. O budista Dalai Lama afirma que o cultivo do amor e da compaixão é a verdadeira essência da religião.
O filosofo André Comte-Sponville diz que ela não tem boa reputação, pois ter compaixão significa “sofrer com” e ninguém gosta de sofrer. Mas, segundo ele, a compaixão tem qualidades muitos importantes; basta ver que as ideias se opõe a ela: dureza, crueldade, frieza, indiferença, secura de coração, insensibilidade... Ela nos faz participar da dor, da tristeza, do sofrimento do outro. Todos os sofrimentos merecem a nossa compaixão.
Mas será que a compaixão serve para todos os casos? Por exemplo, o sofrimento de um invejoso diante da felicidade do outro merece compaixão? Ou, ainda, devemos ter compaixão por um torturador, que gosta de ver o outro sofrer, matando e ferindo as pessoas? Pois é importante saber que ele também precisa de compaixão, embora condenemos seus atos. Comte-Sponville diz que devemos nos compadecer sim, pois o sofrimento, a dor, a tristeza, o ódio estão presentes nessas situações.
A compaixão é o contrário da crueldade, que se satisfaz com o outro, e do egoísmo, que impede a busca da cura dos sofrimentos alheios. Ter compaixão é não ser indiferente a nenhum sofrimento, independente do motivo! É recusar-se a pagar o ódio com o ódio! É procurar socorrer todos os que sofrem! É como a compaixão de Cristo por seus carrascos e de Buda pelos maus.
Ter um bom coração é muito importante na vida cotidiana, pois disso depende nossa felicidade e a dos outros. Somente quando a compaixão fizer parte da vida cotidiana, teremos o Reino da felicidade na terra, pois ela gera a não violência, nos impede de agredir o próximo e nos ensina a não usar a raiva e o ódio como armas, e sim o amor: a mesma arma que Gandhi ensinou a usar.
Por isso, neste mundo de tantos sofrimentos, o papel da compaixão é fundamental. Basta olharmos ao nosso lado para percebermos que o sofrimento está espalhado por todos os cantos. Inúmeras pessoas sofrem por causa da fome, da pobreza, da injustiça, do abandono e da falta de amor.
Se prestarmos bastante atenção, veremos que o sofrimento está presente na política, na economia, nas diversas sociedades, nos conflitos religiosos, nas relações entre as pessoas e em nós mesmos, em nossa alma e em nosso corpo. Não podemos ser indiferentes ao sofrimento à nossa volta, e nossa resposta à dor deve ser a compaixão, pois onde ela existir os sofredores serão consolados.
DOIS GRANDES EXEMPLOS DE COMPAIXÃO
Os budistas dizem que muitas vezes a compaixão pode ser usada de forma simples: podemos, por exemplo, apenas ouvir o desabafo de alguém sobre seus problemas e compartilhar situações difíceis.
Atos de compaixão simples como esses foram usados por Jesus. Ele se compadeceu dos sofrimentos humanos, ouviu o apelo dos sofredores, cuidou dos leprosos e agiam em favor das pessoas que necessitavam de ajuda. Sua vida foi intensamente dedicada a acabar com o sofrimento alheio. A compaixão de Buda também era muito grande: ele mendigava pelas ruas para alimentar os que tinham fome.
Por meio dos exemplos de Buda e Jesus, entendemos que a compaixão não é apenas com nossos amigos ou pessoas próximas: também nossos inimigos e as pessoas que não conhecemos merecem compaixão. A verdadeira compaixão baseia-se no direito de todo ser humano a ser feliz: um inimigo nosso também é um ser humano e, como todos nós, busca a felicidade e tem direito a ser feliz.
O Dalai Lama diz que a compaixão nos dá uma grande força interior e nos permite falar com nossos semelhantes de coração a coração. Por outro lado, se tivermos maus sentimentos em relação aos outros, eles poderão sentir o mesmo por nós. E isso acaba gerando isolamento entre as pessoas.
Ora, você poderia perguntar: Será que é tão fácil ter compaixão? Como desenvolvê-la? Podemos cultivar a compaixão em todos os seres humanos?
As religiões ensinam que sim! O filósofo Jean-Jacques Rousseau, por sua vez, diz que todas as pessoas são boas e precisam de educação adequada para cultivar essa bondade. Devemos cuidar das crianças, dos jovens e de todos os seres humanos com amor e dedicação para que sintam e aprendam a compaixão.
Temos duas opções: ou viver num mundo frio, de sofrimento e indiferença, ou viver num mundo feliz, de amor e compaixão. No século que se passou tivemos muito mais sofrimento, guerras e violência do que compaixão. Precisamos, hoje, sonhar e trabalhar por mais compaixão e amor entre os seres humanos.
DEUS ESTÁ ONDE ESTÁ O AMOR
O conto a seguir é da autoria do escritor e pensador russo Leon Tolstoi (1828-1910):
Havia numa cidadezinha um sapateiro que morava num porão com apenas uma janela que dava para a rua. Embora visse apenas os sapatos de quem passava pela rua, ele conhecia todas as pessoas pelos sapatos que usavam. Estava sempre muito ocupado, pois trabalhava com perfeição, por isso todos o estimavam e nunca lhe faltava serviço.
O sapateiro sempre fora um homem bom, mas, ao envelhecer, começou a se preocupar mais com sua alma e a querer se aproximar de Deus. Sua mulher havia morrido e deixado um filho de três anos. Ele cuidou bem do menino, mas, quando este atingiu a idade de ajuda-lo, adoeceu e morreu. A perda do filho o fez sofrer tanto que ele chegou a murmurar contra a justiça divina. Sentia-se tão infeliz que pedia a Deus que o levasse também.
Certo dia foi à casa do sapateiro um amigo que havia oito anos percorria o mundo como peregrino. Conversaram muito tempo e o sapateiro se queixou amargamente de sua desgraça. O amigo lhe disse que não devemos julgar a vontade de Deus, pois suas razões estão acima do nosso entendimento, mas devemos viver para Deus. Indicou-lhe também a leitura do Novo Testamento para saber como se vive para Deus. Aquelas palavras calaram fundo na alma do sapateiro, que começou a leitura do Novo Testamento nos dias de folga. Ficou tão encantado com a leitura que em pouco tempo estava lendo todas as noites. À medida que progredia na leitura, ia compreendendo com maior clareza o que Deus exigia, como viver para Deus, e a alegria penetrava docemente sua alma.
As belas histórias, os ensinamentos, as parábolas, lhe inundavam o coração de alegria, imersos em profundas reflexões, comparava seus próprios atos às palavras do Cristo. Certa vez, de repente, ao cochilar em cima do Evangelho ouviu uma voz dizendo-lhe que olhasse para a rua, pois no dia seguinte iria receber a visita de Cristo. Levantou-se, então, antes do amanhecer e fez suas orações. Pôs-se a trabalhar, espiando de vez em quando pela janela; quando passavam botas desconhecidas, levantava-se para ver o rosto da pessoa.
Num dado momento, passou um velho soldado de nome Stepavitch. O solado parou em frente à janela e começou a tirar o gelo. O sapateiro riu de si mesmo dizendo: - O soldado vem limpar a neve e imagino que Cristo vem me visitar. Estou delirando. Mas pensou: “Este infeliz está muito velho para tirar a neve, vou oferecer-lhe uma xícara de chá”. Chamou o velho e serviu duas xícaras de chá bem quente para recompor o frio. Enquanto o soldado tomava o chá, o sapateiro começou a lhe falar sobre vida de Jesus e sobre sua bondade, e o homem, que não sabia ler, ouvia aquelas palavras com muita atenção. Entre uma palavra e outra, as lágrimas escorriam no rosto do velho soldado. O velho agradeceu do fundo da alma e saiu confortado.
O sapateiro voltou a costurar e a espiar pela janela, pensando em tudo o que Jesus dissera. Apareceu, então, uma mulher com sapatos de camponesa. Ele olhou para aquela desconhecida com uma criança nos braços. Apesar do frio, a mulher usava roupas leves. O sapateiro convidou-a a entrar e ela aceitou. A mulher não tinha mais leite para amamentar a criança e não comia nada desde a manhã. O sapateiro cuidou do menino e deu de comer à mulher. Procurou entre as roupas penduradas na parede, encontrou um velho manto de lã e entregou-o a ela. Deu-lhe também as poucas moedas que tinha, para ela cuidar da criança. Contou-lhe, ainda, que ouvira uma voz dizer que Jesus viria à sua casa. A mulher achou a coisa possível, pegou o manto, enrolou o menino e agradeceu.
O sapateiro retornou ao trabalho. Enquanto trabalhava, espiava a rua. A cada vulto que se aproximava, levantava os olhos para ver quem era. Alguns eram conhecidos, outros não. A essa altura, a velha vendedora de maçãs, parou em frente à janela. Apareceu um garoto e roubou suas maçãs. Antes que conseguisse fugir, a velha agarrou-o pela manga. O garoto tentou escapar, mas a velha estava furiosa. Sem perder tempo, o sapateiro correu para fora.
A mulher batia no menino, ameaçando entregar-lhe a polícia. O garoto negava o furto. O sapateiro separou os dois e segurou a mão do menino. Perguntou à velha se não podia perdoa-lhe em nome de Cristo. Ela soltou o garoto. O menino começou a chorar e pediu perdão. O sapateiro o consolou e lhe deu uma maçã. Falou-lhe sobre o perdão de Deus e contou a Parábola do Senhor que perdoou a dívida do servo e o mesmo servo quis enganar um devedor (na aula 19.069 JESUS E A COMPAIXÃO, você conhecerá esta parábola). A velha e o menino ouviam, quietos. A velha concordou com a necessidade do perdão e falavam ainda da necessidade de os mais velhos, educarem bem a infância. O menino acabou levando o cesto de maçãs para a senhora.
O sapateiro entrou, acabou o serviço e pegou o Evangelho na prateleira. O livro se abriu numa página. O sonho voltou-lhe à mente. Ouviu novamente a voz sussurrando ao seu ouvido: - Você não me conhece? - Quem é você? – perguntou o sapateiro. As três cenas lhe vieram à cabeça: a do soldado, a da moça e a da velha. O sapateiro sentiu imensa alegria no coração. Começou a ler o Evangelho na página aberta: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber; eu era estranho e me acolheste”. No final da página estava escrito: “O que tiverdes feito pelo amor dos meus irmãos, é a mim que fizestes”. O velho sapateiro compreendeu que seu sonho era verdadeiro. O salvador viera à sua casa naquele dia nas pessoas que precisavam de ajuda e ele o havia acolhido.
(Leon Tolstoi. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1962. Adaptado para fins pedagógicos.)
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